Synedoche, New York

Porto Alegre. Ainda 7 de abril.

Tarde quente e preguiçosa. Os gatos, mais devagares que eu. Sentei no sofá sem mexer do lugar pra ver um filme. Escolhi o último do Kaufman, que ele mesmo dirigiu. Achei estranho estar me vendo na tela do computador.

21h da noite. Saio do consultório da terapia e dou uma volta pela Osvaldo. Assisto um gato persa em uma gaiola de uma pet shop: os olhos esbugalhados, as patas cravadas no chão da gaiola. Bonitinho. Resolvo voltar pra casa, pois Mariana já deve ter voltado do trabalho. Na parada do ônibus, ouço uma confusão atrás de mim. Um garoto de rua sai correndo da redenção em direção ao hospital, dribla dois policiais militares, um homem e uma mulher. Na disparada final, quando deixou os dois com cara de bobo pra trás, o cara do cachorro-quente o segurou pela cintura, e fechou os braços em volta de seus ombros. Fim da linha.

A criança, que não passava dos 7 anos de idade, tomou um tabefe da brigadiana e um safanão do brigadiano. Quando reagiu, um cassetete vou nas suas pernas com tanta força que ouvi o som do osso parando  a madeira. O berro da criança foi terrível.

Do meu lado, uma velha:

– Isso. Tem que pegar. Tem que bater, que isso aí quando cresce depois sai matando a gente na rua. Tem que segurar com força e… (um prazer imenso no rosto neste momento, quando me virei pra ver de onde vinha aquela voz)

– Tá falando isso pra quem? – perguntei. Nem reconheci minha voz. Era mais um rugido que assustou algumas pessoas ao meu redor. – Eu não quero ouvir isso! PRA QUEM TU TÁ FALANDO ISSO?

Ela calou-se, e entrou no primeiro ônibus que apareceu.

***

Mariana foi dormir e voltei pra ver mais um pouco do filme. Não fui trabalhar hoje. Não me sinto bem. Já é dia 8 de abril.

Termino de ver a história da existência mais triste do mundo. No spoilers. Veja com seus próprios olhos.

Pensei em quantas vidas é preciso para se fazer tudo certo. O que é necessário pra que o tempo passe e nos deixe satisfeitos. Se o medo que eu sinto de morrer ou perder quem eu amo precisa ser tão grande quanto eu faço. Em todos que deixei pra trás e nunca dei atenção, mas não há tempo. Pensei em meu pai. Pensei no que é necessário ter dentro de si pra conseguir abandonar a vida que se tem, e não se conectar com nada que há no passado. Quando se tenta, enfim, sempre é tarde demais.

Mariana sempre me diz que meu trabalho vai surgir de verdade quando eu encarar o demônio dentro de mim. Às vezes acho que ele se esconde. Só de sacanagem. Não quero mais ser cheio de potencial. Quero ser. Enfim, não dá bola. São três da manhã. Se você leu até aqui, obrigado. E boa noite.

Um pensamento sobre “Synedoche, New York

  1. prezado, Marcel.
    Meu nome é Mathias Rosner, sou membro da Sociedade Guindade de Parapsicologia e gostaria de convidá-lo a assistir uma de minhas palestras. Não posso garantir, mas acredito que o assunto da palestra o interessará.
    Bem, de qualquer forma, precisamos conversar.
    Grande Abraço.
    MR

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