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Um pouco de história

Vou começar do começo. Cerca de três anos atrás (para fazer uma estimativa aleatória) eu estava estimulado pelos incríveis textos de Gabriel Bá e Fábio Moon no site 10 pãezinhos, que me levaram a acreditar em mim mesmo e começar a desenhar pra valer. Ao mesmo tempo, eu procurava entender como funcionava isso, pesquisava processos de outros artistas dias a fio em todos os mecanismos de busca possíveis da web. Foi assim que tropecei do trabalho de Ray Frenden, acredito que no início de sua carreira, exibindo suas linhas perfeitas no Youtube.

 O que ele fazia era tão simples e gracioso que me inspirou mais ainda. O cara fazia todo o projeto digital, gravava e disponibilizava isso na rede. Eu pensava: “nossa, taí um cara realmente generoso”. Tem que ter coragem pra entregar o jogo assim. Mas um artista só é artista por causa do processo, e mostrar isto é como desvelar o mistério (desafios da pós-modernidade: o artista sem cara de mistério). Desde então, tenho dado uma espiadela no que o cara anda fazendo, acompanhando a sua trajetória, vendo como anda lidando com o trabalho, sempre meio assim de longe.

Ok, isso não é novidade. Sempre persigo o trabalho daqueles que admiro: Bá, Moon, Grampá, Laerte, Risso. Influências são assim, você as quer por perto. Sorte eu tenho que todos esse produzem muito e são muito abertos a respeito de seu processo. O Ray Frenden desistiu do Youtube, então fiquei um tempo sem ver o que ele andava fazendo.

Poucas semanas atrás me deu um estalo na cabeça e o nome dele veio na cabeça. Toca pro oráculo digital e procura o cara. Massa, tem um blog. Tudo acumulado ali: portfólio, vídeos, trabalhos. Um dossiê da vida profissional do tal. Como eu ando atualizando meu Flickr direto e transformei ele num tipo de rede social com outros artistas, resolvi procurar ele lá. Fiz o de praxe: adicionei o cara, sem pretensões.

Ontem quando coferi os e-mails, recebi o boletim de atividade do Flickr. Quase caí da cadeira quando vi que Ray Frenden havia comentado um de meus desenhos. Pura alegria. Corri pra contar pras Maris (respectivamente: Bandarra, minha esposa e Messias, minha amiga, quase cunhada e companheira às tardes no MSN). Mari Messias me atiçou: escreve pra ele. Foi um grande texto em ingrish-tupi-guarani contando como entrei em contato com o trabalho dele e como ele influenciou o meu. Na assinatura, o link deste blog.

Cerca de 40 minutos depois, um comentário pipoca no meu blog: I really like this one. Outro desenho carimbado com a aprovação do cara. Mando outro e-mail agradecendo (menos texto, mas um desenho bacaninha). O cara é o rei da zumbizada, então foi um auto-retrato meu, versão zumbi:

E hoje, quando chego de uma jornada no centro de Porto Alegre, vem da Califórnia uma resposta cordial e singela:

Isso foi uma massagem no meu ego. Me fez muito bem. Muitas pessoas me falam do quanto gostam do meu desenho, e me deixam muito orgulhoso: Marcelo Noah, Jesusa, Maurício, Beto, Graça, minha amadíssima esposa, entre tantos outros amigos. Sinto sempre que é sincero e me inflo de confiança. Mas esse cara tá na gênese da minha decisão de querer fazer disso minha carreira, minha vida, meu trabalho. E ele dedicou pelo menos uns 20 min da vida dele pra me dar o mínimo de atenção. Mais uma vez: thanks, Ray. Your support is very important to me. Maravilha essa tal de internet, não?

I wanna play jazz

A pressa sempre foi minha inimiga. Desde muito cedo, me falta paciência pra resolver as coisas como poderia. Isso reflete também na minha falta de organização, que também atrapalha muitos de meus processos. Eu adoro ver a folha em branco e sentir aquele formigamento… quase um salivar da possibilidade que se encontra nela. Desenho é minha gênese, meu mimo, adoro desenhar. Mas pintar é como dançar… é uma coisa de corpo inteiro. E eu aplicava muito mais tempo à minha pintura por causa disso. Então, resolvi me recriar de alguma forma.

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Essa é minha prancheta. Embaixo dela tem uma dedicatória do meu amigão Vêrça (pra quem ainda devo grana pela prancheta… um dia…). Ela fica na sala do novo apê em que me instalei com minha excelentíssima.

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Esse é meu laboratório. O scanner perto da mesa, o computador perto do scanner. Tudo pra eu me mexer pouco. É bom limitar o espaço, assim não invado o da Mariana e tenho menos dimensões pra desorganizar.

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Assim mais ou menos é a prateleira de desenhos. Sem pastas, à vista, livre para manuseio. Uma pilha para os que já foram tratados e digitalizados, uma pilha para os que esperam ser terminados ou digitalizados.

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Ontem surgiu a idéia de um desenho. Algo que eu pudesse ficar muito tempo sem cima, produzindo e tudo mais. Algo pra exercitar minha paciência. Pra ocupar meu tempo, pra melhorar meu traço e pra que veja algo ficando pronto gradativamente. Sem pressa. Sem euforia.

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Então, encontrei um disco da Nina Simone na internet. Trilha perfeita. Quase um embalo de navio.

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Jazz é assim. Tem um tempo fora da rotação do planeta. Quando entra na cabeça da gente, muda tudo. A percepção de tempo muda. E cada detalhe, cada nota tocada em seu tempo. Sem pressa. Sem euforia. Onde devia estar. Acho que é mais ou menos isso que eu tô buscando no meu desenho. Essa forma circular e expansiva, que explode na gente. Just like jazz.